Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim, reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.
—Isso mesmo, disse o pae de Estella.
—Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.
—Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado.
Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil, porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.
Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta: «Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.
—Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer que Yayá vae casar.
—Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um instante:—É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou eu.
—Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...
—Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante cousa. Aquella menina não tem cabeça.