—Cale-se! interrompeu ella batendo-lhe com a grammatica na ponta dos dedos. E depois de uma pausa:—Se elle lhe escrever, mostra-me a carta!
Como Jorge lhe dissesse que sim, Yayá fez um movimento para rasgar o volume em dous pedaços. Jorge perguntou-lhe o que tinha.—Nervoso! respondeu a moça sacudindo os hombros com um calefrio. Depois, como a amparar-se, lançou-lhe a mão a um dos pulsos. Jorge sentiu a pressão de uns dedos de ferro; e parece que outros dedos invisiveis tambem comprimiam as faces da moça, vermelhas como se vertessem sangue.
[XIII]
Jorge achou em casa, nessa mesma noite, uma carta de Buenos-Ayres. Procopio Dias narrava-lhe a viagem e os primeiros passos, e dizia ter toda a esperança de se demorar pouco tempo. Tudo isso era a terça parte da carta. As duas outras terças partes eram saudades, protestos, expressões de sentimento, e um nome no fim, um nome unico, e que era a chave do escripto. Jorge leu attentamente essas confidencias, e na mesma noite esboçou uma resposta. Não era facil combinar a discrição que quizera conservar em suas relações com Procopio Dias e a necessidade de lhe mandar algumas esperanças. Embora com esforço, redigiu a resposta conveniente, contando-lhe as boas impressões que tinha; só as boas, não lhe disse as duvidosas; sobretudo não desceu a nenhuma realidade, a nenhum nome proprio; nada mais que uma extensa serie de locuções egualmente animadoras e vagas.
No dia seguinte não foi á casa de Luiz Garcia; choveu torrencialmente. Mas no outro dia foi, logo depois do jantar. Achou reunida a familia.
—Good evening, my dear mestre! bradou Yayá logo que o viu entrar na sala.
—Faltava mais uma lingua a esta tagarella, disse Luiz Garcia rindo; daqui a pouco tempo ninguem a poderá aturar.
Jorge não esperava, de certo, encontrar na moça a mesma expressão que lhe deixára na antevespera, quando de um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta e oito horas, e para que ella se restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito minutos. Contava com a mudança; não obstante procurou ler-lh'a nos olhos, e achou-os tão alegres como o tom em que ella o saudara. A licção isolou-os, e foi tambem o pretexto mais favoravel para lhe mostrar a carta de Procopio Dias. Yayá viu-a sellada e comprehendeu tudo; arrebatou-a ás mãos de Jorge.
—Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.
—Posso ler?