—Pode.
Yayá desdobrou a carta e leu-a para si, Emquanto lia, Jorge fitava-a. Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e a mão firme voltava a pagina. No fim, quando leu o proprio nome, teve um movimento de tedio, e inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta com a mão e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos occupou-se em traçar com um lapis alguns circulos na margen da folha aberta da grammatica; ergueu emfim os olhos e perguntou sem rir:
—Acredita no que diz essa carta?
—Acredito; tudo o que está ahi escripto, já o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem sabe? pode ser que seja o primeiro amor desse homem.
—O primeiro... o primeiro... repetiu ella entre dentes.
—Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho que deve ter algum encanto ser amada por um homem, considerado superior ás paixões. A vida de Procopio Dias teve sempre outra ordem de interesses...
—Conhece-o ha muitos annos?
—Ha muitos, não; conheço-o desde o Paraguay.
—Acha que eu fazia bem em me casar com elle?
—Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessario, e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que a senhora o não ame deveras; já tive occasião de o dizer.