—Nove horas!

Estella foi a janella, e, abrindo a veneziana, mostrou-lhe o sol. Depois encostou-se alli a olhar para fóra. Entrara alguns minutos antes, admirada do prolongado somno da enteada, e ia pousar-lhe a mão no hombro, quando ouviu aquella palavra balbuciada no meio de grande agitação; palavra mysteriosa e vaga, mas que se lhe embebeu no coração como um espinho. De sua parte, Yayá não estava menos inquieta. Receiava que houvesse dito alguma cousa mais,—um nome ou uma circumstancia precisa;—em todo caso, era bastante o que ouvira a madrasta, para imaginar que o sonho lhe escancarara as portas da consciencia. Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e medrosas. A madrasta deixou a janella e foi sentar-se na beira da cama. Ambas sorriam com esforço e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim tres longos minutos de acanhamento e observação reciproca. Estella foi a primeira que rompeu o silencio.

—O teu pesadelo foi um castigo, disse ella; foi o castigo da caricatura que hontem fizeste. Aquillo não é bonito. Todos sabem que o Procopio Dias é bem recebido em nossa casa. Que se hade pensar de nós, quando virem que se tratam assim as pessoas ausentes?

Yayá reflectiu um instante.—Era preciso, disse ella; era uma maneira de desenganar de uma vez as pretenções desse senhor.

—Mas quem te falou nellas?

—O Dr. Jorge, que parece protegel-o. Não é possivel que haja ninguem mais feliz do que aquelle homem. Bastou gostar de mim, para que todos se empenhem em approval-o e aconselhar-me que não devo tomar outro marido. Parece-lhe que eu...

—A que proposito te falou nisso o Dr. Jorge?

—A proposito de cousa nenhuma; falou porque é amigo delle. Não lhe disse eu uma vez que um dia, se todos teimarem, serei obrigada a casar com o Procopio Dias? Receio muito que assim aconteça.

—Não, disse Estella vivamente; não hade acontecer assim, primeiramente por que eu não o consentirei nunca; depois, por que tu amas a outro...

—Eu?