—Continuemos a licção, disse ella. I love. Vá; onde estavamos? Aqui, era aqui.

Estella assistiu á licção toda, com a paciencia da curiosidade. Não olhava nunca para o mestre, dividia a attenção entre a discipula e o livro. A licção foi longa, mais longa do que era necessario, porque o proprio mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura. Yayá tinha deante de si dous juizes, cada um dos quaes buscava decifrar-lhe na fronte a inscripção que lá lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e não se enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando ao começo logo que chegava ao fim, fitando os dous inquisidores com um olhar em que pareciam dormir todas as ignorancias da terra.

A tranquillidade era apparente. Nessa noite, recolhida aos aposentos, a moça deu largas a dous sentimentos oppostos. Entrou alli prostrada.—Que estou eu fazendo? disse ella apertando a cabeça entre os punhos. Abriu a veneziana da janella e interrogou o ceu. O ceu não lhe respondeu nada; esse immenso taciturno tem olhos para ver, mas não tem ouvidos para ouvir. A noite era clara e serena; os milhões de estrellas que scintillavam pareciam rir dos milhões de angustias da terra. Duas dellas despegaram-se e mergulharam na escuridão, como os figos verdes do Apocalipse. Yayá teve a superstição de crer que tambem ella mergulharia alli dentro e cedo. Então, fechou os olhos ao grande mudo, e alçou o pensamento ao grande misericordioso, ao ceu que se não vê, mas de que ha uma parcella ou um raio no coração dos simplices. Esse ouviu-a e confortou-a; alli achou ella apoio e fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe:—Prosegue a tua obra; sacrifica-te; salva a paz domestica. Restaurada a alma, ergueu-se do primeiro abatimento. Quando abriu de novo os olhos, não foi para interrogar, mas para affirmar,—para dizer á noite que naquelle corpo franzino e tenro havia uma alma capaz de encravar a roda do destino.

Tarde conciliou o somno. Já dia claro, sonhou que ia calcando a beira de um abysmo, e que uma figura de mulher lhe lançava as mãos á cinta e a levantava ao ar como uma pluma. Pallida, com o olhar desvairado, a boca ironica, essa mulher sorria, de um sorriso triumphante e mau; murmurava algumas phrases truncadas que ella não entendia. Yayá bradou-lhe em alta voz:—Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava! Mas a mulher sacudindo a cabeça com um gesto tragico, e collando-lhe os labios nos labios, soprou alli um beijo convulso e frio como a morte. Yayá sentiu-se desfallecer e rolou ao abysmo. Accordou agitada e deu com a madrasta, a contemplal-a, ao pé da cama. No primeiro instante, fechou os olhos e recuou até a parede; mas logo depois voltou a si.

—Tive um pesadelo horrível, disse ella respirando largamente; rolei no fundo de um abysmo, empurrada por duas mãos de ferro. Ainda estou fria. Veja as minhas mãos. Tenho o peito opprimido. Felizmente passou. Está aqui ha muito tempo? Eu agitei-me muito?

—Falaste em voz bem alta.

—Que foi?

—«Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava,» Não sei que estas palavra se possam dizer no fundo de um abysmo. Tu confundes os sonhos...

—Talvez; não me lembra outra cousa. Só me lembro do abysmo, que felizmente não passou da minha imaginação. É muito tarde, não é?

—Nove horas.