—O Senhor vá comtigo.

Quando o levaram, a mãe deixou-se caír n’um banco e soluçou docemente com as palpebras abaixadas. Encostada á parede, como seu marido fazia outrora, torturada pela angustia e pelo sentimento da sua impotencia em semelhante transe, chorou durante muito tempo, fazendo passar ás lagrimas a dôr do seu coração ferido. Via na sua frente, como se fosse uma mancha immovel, uma fisionomia amarella, de bigode delgado, olhos semi-cerrados, aspecto feliz. No seu peito contorciam-se, como em negro torvelinho, o desespero e a colera contra quem roubava um filho a sua mãe, só porque elle procurava a verdade.

Estava frio: as gottas de chuva batiam nas vidraças, ao longo das paredes deslisava o que quer que fosse; dir-se-ia que nas trevas, silhuetas pardas, de grandes caras sem olhos, e de braços compridos, rondavam, espiando. E as suas esporas tintilavam fracamente.

—Seria melhor que me tivessem levado tambem! pensou.

O apito da fabrica vibrou, na sua ordem de começar o trabalho. N’aquella manhã, foi um apito vago, e hesitante. A porta abriu-se, Rybine entrou. Approximou-se de Pélagué, e limpando as gottas de chuva que se lhe haviam espalhado pela barba:

—Levaram-no?

—Sim. Malditos!

—Bonita coisa! A mim, revistaram-me, rebuscaram tudo... Injuriaram-me... mas afinal não me prenderam. Com que então, levaram o Pavel?! O director deu o signal, a policia obedeceu, e aqui está como se prende um homem! Entendem-se bem uns aos outros, como os gatunos nas feiras. Uns encarregam-se de ordenhar o povo, emquanto outros o seguram pelo focinho.

—Devem tomar a defeza do Pavel! exclamou ella, erguendo-se. Foi por causa de todos que elle se comprometteu.

—Mas quem deve tomar essa defeza?