Durante o dia todo, Pavel sentiu-se desgraçado, como se tivesse perdido alguma coisa e presentisse a sua propria perda sem compreender no que ella consistiria.

De noite, quando a mãe já dormia e elle ainda estava lendo na cama, a policia voltou para revolver raivosamente em toda a casa, no pateo e no sotão. O official amarellento portou-se, como da primeira vez, d’uma maneira impliquenta e offensiva, sentindo prazer em melindrar Pavel e a mãe. Assentada a um canto, Pélagué mantinha-se em silencio, com o olhar fixo no rosto do filho. Este tentava occultar a perturbação, mas quando o official ria, os dedos do rapaz tinham movimentos não vulgares; a mãe percebia quanto elle estava soffrendo por não poder responder á letra aos gracejos do officialsito. Sentia-se menos assustada do que na primeira busca, mas era maior o seu odio por aquelles visitantes nouturnos, vestidos de cinzento, de esporas tintilantes.

Pavel conseguiu dizer-lhe baixinho:

—Vão levar-me.

Baixando a cabeça ella respondeu:

—Percebo...

Compreendia: iam mettel-o na cadeia pelas frases que elle dirigira aos operarios. Mas estes tinham-nas apoiado, e todos iriam tomar a defeza de Pavel, que só por pouco tempo ficaria preso.

Tinha vontade de chorar, de abraçar o filho; mas ao seu lado o official observava-a com olhar malevolo, os labios tremiam-lhe assim como o bigode, e Pélagué sentiu que aquelle homem esperava com alegria que ella se desfizesse em lagrimas, em supplicas, em lamentações. Reunindo todas as suas forças, falando o menos possivel, apertou a mão do filho e disse em voz baixa, retendo a respiração:

—Até á vista, Pavel. Levas comtigo tudo que precisas?

—Levo. Não te dê cuidado.