—Vão arrastando um humilde servo de Deus!...
Ella ficou silenciosa e curvou-se profundamente commovida pelo espectaculo d’aquelles rapazes honrados, intelligentes e modestos que iam para a cadeia com o sorriso nos labios. Sem dar por tal, começava a consagrar-lhes um compadecido amor de mãe. E era-lhe agradavel ouvir as frases de censura para os directores, porque n’ellas sentia a influencia do filho.
Quando saíu da fabrica, passou o dia em casa de Maria, ajudando-a, dando attenção á sua tagarellice. Só tarde voltou para a sua casa vasia, fria, hostil. Por muito tempo vagueou de um canto para o outro, sem saber que fazer nem onde sentar-se. Estava inquieta vendo que Iégor ainda não viéra, como promettera.
Lá fóra, caíam pesados flócos pardos d’uma neve de outomno. Collavam-se aos vidros, deslisavam sem ruido e derretiam-se deixando rastos humidos. Pélagué pensava em Pavel.
Porque batessem cautelosamente á porta, accorreu logo a puxar pelo ferrolho: era Sachenka. Pélagué não a via desde muito tempo; chamou-lhe logo a attenção a gordura da rapariga.
—Bôa noite! Tem estado muito longe d’aqui?
—Não. Na cadeia! respondeu, sorrindo. Ao mesmo tempo com o Nicolao Ivanovitch. Lembra-se d’elle?
—Como havia d’esquecel-o? O Iégor disse-me que o tinham posto em liberdade, mas de si não me falou, nem elle, nem ninguem.
—E para que serviria isso? Deixe-me despir antes que o Iégor venha.
—Está toda molhada!