—Quando elle morreu, agarrei-me ao meu filho, que começou a preoccupar-se com essas coisas... Foi então que tive compaixão d’elle. «Como hei-de viver sósinha, se elle morrer?» perguntava a mim mesma. Quantos receios! quantas angustias! O meu coração despedaçava-se, quando eu pensava na sorte do Pavel!
Calou-se por instantes, meneou a cabeça, e continuou:
—É impuro o nosso amor, o das mulheres! Amamos aquillo de que precisamos... Quando o vejo pensar em sua mãe... Que falta lhe faz ella? E aquelles que soffrem pelo povo, que são mettidos na cadeia ou mandados para a Siberia, que morrem ou são enforcados por lá... essas raparigas que andam sósinhas de noite por cima da neve, da lama, e á chuva, que andam sete kilometros para virem ver-nos... o que é que as leva a isto? É o amor, mas um amor puro! Teem a fé... a fé...! Eu não sei amar assim; amo o que me diz respeito, o que me é próximo!...
—Tem razão! Todos amam o que lhes fica ao alcance, mas, para uma grande alma como a sua, do longe faz-se perto. Pode amar muito, porque tem um grande amor materno.
—Deus queira! Sinto que ha-de ser bom viver assim. Por exemplo, estimo-o, André, talvez mais do que o Pavel... Elle é tão reservado! Olhe: quer casar com a Sachenka e nunca me disse uma palavra, a mim, sua mãe!
—Não é verdade! Sei que não é verdade! Ama-a, e ella tambem o ama. Quanto a casarem, não. Ella quereria, mas o Pavel...
—Ah!... exclamou ficando a olhar tristemente para André. É isso! Deve-se renunciar a si mesmo.
—O Pavel é um homem extraordinario! Um caracter de ferro.
—E agora... preso! Mas a minha alma transformou-se, abriu os olhos, vê. Emquanto houver ricos, poderosos, o povo não obterá justiça, nem alegria, nada! Não é isto, André?
Elle levantara-se pensativo.