—É isso mesmo! Havia em Kertch um rapaz judeu que fazia versos, e que uma vez disse assim:
Podem assassinar os innocentes,
Que a força da verdade os resuscita!
Elle mesmo foi assassinado pela policia, em Kertch, mas isso que importancia teve? Conhecia a verdade e semeára-a no coração dos homens. Ah! Pélagué! A sr.a é tambem uma creatura condemnada á morte... Resuscitou. O poeta sabia o que dizia.
—Falo, falo, e sinto-me, e não creio nos meus ouvidos. Hoje penso em todos. Não compreendo talvez muito bem isso em que andam mettidos... mas todos sinto proximo de mim, e desejo a felicidade de todos, a sua principalmente, meu André!
Elle approximou-se dizendo:
—Obrigado. Não falemos mais de mim.
E pegando-lhe na mão, apertou-a com força e voltou o rosto para o lado.
Fatigada pela commoção, Pélagué começou de lavar a loiça vagarosamente, emquanto o russo-menor, passeando pelo quarto, ia falando.
—Mãesinha, deve tratar de amansar o Vessoftchikof! o pae está com elle na mesma cadeia; é um velhote repellente. Quando o filho o vê, pela janella, insulta-o. Não é bonito! O rapaz é bom, gosta dos cães, dos ratos, de todos os seres, menos dos homens! Ora veja até que ponto pode ser corrompida uma alma humana!
—A mãe desappareceu, sem dar novas nem mandados. O pae é um bêbedo... disse Pélagué, pensativa.