—Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da cidade, fossem...?

As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka, appareceram-lhe na frente.

—Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua consciencia, sem más intensões...

—Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si proprio, não tendo para isso fortes razões.

E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma incredulidade secular:

—Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!

—O que resolves, então?

—Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!

Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.

—Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo; sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender, encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.