Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos, explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os:
—É preciso tratar d’isso!
Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna:
—E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo!
Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia, Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado, offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira:
—A transformação da organisação actual é uma grande obra, companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario... que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa!
E mostrou as botas rotas e que mettiam agua.
—As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas!
Pavel disse uma vez, falando de Iégor:
—Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais soffre.