Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces.

Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz, que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham.

Sentiu desejos de dizer-lhe:

—Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás!

Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão intelligente, tão transformado...

Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação, falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes, meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho:

—E tens a certeza de que isso é assim?

—Tenho! respondia elle com a voz forte e firme.

E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões, exilados para o degredo pelos inimigos da vida.

—Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores almas deste mundo!