Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo:
—Sempre me deram um trabalhão!...
Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que assobiava, gritava, gesticulava.
—O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de sombra, em parte alguma.
—Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto!
—E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se.
—Porque está elle a mangar comigo?
N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem fim, que escachoava com estrondo...
Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito. Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e, tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente, como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo som, calculou que fôsse já a segunda chamada.
Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no sobrado emporcalhado; tudo em confusão.