Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como quem rola para um precipicio.

Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia, Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André:

Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido...

Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança. Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro, cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...»

O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças repetiam a meia-voz:

«Christo ressuscitou d’entre os mortos»...

—Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja. A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava:

—Não abandonem a criança! Salvem-na...

E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor proseguia cantando:

—«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...»