—Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada, passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho:
—Ein? que corja!
—O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar, desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa.
—Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou Korsounova timidamente.
Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação, Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes letras garrafaes:
«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario».
—Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou com um riso de mofa: Que selvagens!
Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr.
Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo, apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella; agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz avinhada:
—Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos estão soffrendo os mesmos enxovalhos,—ouves?—todos!