Tremiam-lhe na voz lagrimas de grata felicidade; fitou-os a ambos com um olhar muito risonho e continuou:
—Queria abrir-lhes a minh’alma para que vissem todo o bem que lhes quero.
—Mas nós bem vêmos! disse Nicolao com bondade. E sentimo-nos felizes por têl-a na nossa companhia.
—Sabem o que isto me parece? interrogou ella, sempre com voz sumida, risonha, parece que foi um tesoiro que eu achei, que estou rica, que posso presentear toda a gente... Isto é talvez um effeito da minha tolice...
—Não diga tal! interrompeu com gravidade Sofia.
Não era para acalmar de pronto aquella sêde de expansão; continuou portanto Pélagué a falar-lhes de tudo o que para ella era novo e lhe parecia de inapreciavel importancia. Contou-lhes a sua miserrima vida cheia de humilhações e resignado soffrer; por vezes, interrompia-se; julgava ter-se afastado de si mesma e estar falando de si como o faria de qualquer outra...
Sem rancor, em termos correntios e nos lábios sorriso de piedade, desenrolou em presença de Nicolao e da irmã a monotona e lugubre história dos seus tristes dias, enumerado os maus tratos infligidos pelo marido, intimamente admirada, ella própria, da futilidade dos pretextos que os provocavam, admirada por não ter sabido esquivar-se-lhes...
Attentos e silenciosos, Nicolao e Sofia escutavam-na; sentiam-se esmagados pela significação profunda d’aquella historia, d’aquelle ente humano tratado como um animal e que passára tanto tempo sem sentir a injustiça da sua condição, sem um murmurio. Eram milhares de vidas a falar pela bocca d’aquella mulher. Tudo n’esta existencia era banal e indifferente, mas havia pelo mundo innumeravel quantidade de creaturas avergadas áquelle modo de vida... E, avantajando-se mais e mais nos seus raciocínios, aquella história assumia as proporções d’um símbolo... Nicolao, com os cotovellos sobre a mesa, a cabeça entre as mãos, quedava-se immovel, considerando a sua hospede por detraz do vidro dos óculos, com os olhos piscando de attenção. Sofia, reclinada no espaldar da cadeira, sentia-se estremecer, murmurava de quando em quando o que quer que fôsse, abanando a cabeça negativamente. Deixára de fumar; o seu rosto parecia agora mais magro ainda, e mais pálido.
—Um dia, começou ella, em voz baixa, senti-me muito infeliz; parecia-me que toda a minha vida nada mais era do que um delírio de febre. Estava eu então no desterro, n’uma miseravel povoação da provincia, onde nada tinha a fazer, ninguem em quem pensar, a não ser em mim propria... Para occupar este ocio, puz-me a fazer a conta das minhas infelicidades, recordando-as todas: ficára de mal com meu pae, a quem estimava, fôra expulsa do collegio por lêr livros proíbidos; em seguida, fôra a prisão, a traição d’um companheiro a quem muito queria, a captura de meu marido, outra vez a prisão e o degredo, a morte d’elle... E então parecia-me que a mais desgraçada creatura de toda a terra era eu... Mas todos os meus males justapostos e decuplicados, não chegam a valer um mez da sua vida, pobre mulher... não! Essa tortura de todos os dias durante annos e annos... Onde vão os pobres buscar essa força contra o soffrimento?
—Acabam por se habituar! respondeu ella, suspirando.