E pulsou as teclas com força. Resoou um grito violento, como se a alguem acabassem de dar uma d’estas noticias terriveis, das que ferem em pleno coração e arrancam um dolorido queixume. Entraram então a vibrar umas vozes frescas que, logo, horrorisadas e desconcertadas fugiram velozmente, não se sabia para onde; de novo, ecoou uma outra voz sonora e irritada, abafando todo o conjunto... Era com certeza uma desgraça, mas desgraça que incitava coleras, não gemidos. Depois outra voz energica mas reconfortante entrou a entoar uma canção bonita e simples cheia de persuasão, de incitamento. Surdamente, em tom de melindre, as vozes dos graves murmuravam...

Sofia tocou por muito tempo ainda. Pélagué sentia-se perturbada. Todo o seu desejo era perguntar o que significava tal musica, que assim fazia germinar n’ella imagens indistinctas, sentimentos, pensamentos mutaveis sem cessar. O pezar e a angustia cediam o logar perante as scintillações d’uma serena alegria; dir-se-ia que um bando de invisiveis passarinhos redemoinhasse pela sala, acariciando as almas com o perpassar das delicadas azas, contando gravemente alguma coisa que provocasse instinctivamente o curso do pensamento com palavras incompreensiveis, acalentando os corações com esperanças vagas, enchendo-os de força e de vigor.

E Pélagué sentia o ardente desejo de dizer o que quer que fôsse meigo aos seus companheiros. Sorria ternamente, enebriada por aquella música.

Procurou com a vista o que poderia fazer; ergueu-se, e nos bicos dos pés, foi para a cosinha dispôr o samovar.

Mas o desejo de se tornar util não se lhe extinguiu, continuava a pulsar-lhe no coração com obstinada regularidade; serviu depois o chá com um sorriso de embaraço e de commoção, com a alma banhada em tepidos effluvios de sollitude que ella partilhava por igual entre si e os seus companheiros.

—Nós cá, gente do povo, explicou, sentimos tudo, mas é nos difficil exprimil-o, não podemos formar senão ideias incertas; e envergonhamo-nos de não podermos dizer o que se sente. E quantas vezes, para falar com consciencia, a gente não se zanga com as proprias ideias e com aquelles que nol-as suggerem! Entramos a irritar-nos e afugentamol-as! Em que agitações se passa esta vida! É ella que por todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... mas os pensamentos não deixam á alma um só momento de repouso e ordenam-lhe que veja, que oiça.

Nicolao escutava-a, com approvações de cabeça; limpava os óculos com movimentos saccudidos; Sofia encarava fixamente aquella mulher, esquecida do cigarro, que se apagára. Continuava sentada ao piano, e de vez em quando afagava o teclado. Accordes muito brandos acompanhavam assim as considerações da anciã, a qual se deu pressa em revestir os seus pensamentos intimos com palavras da mais simples sinceridade.

—Agora, posso falar um pouco de mim propria e dos meus... porque já compreendo a vida, e comecei a conhecel-a quando pude comparar. D’antes, não tinha pontos de comparação. Na nossa classe, todos levam vida igual. Hoje, que vejo como vivem os outros, lembro-me de como eu vivi e custa-me muito o recordal-o... Emfim, é impossivel voltar atraz; e mesmo quando o pudessemos fazer, não encontrariamos uma nova mocidade...

Baixou a voz; proseguiu:

—Talvez eu esteja dizendo coisas insensatas ou nescias, pois que o senhor e sua irmã devem conhecer tudo isto... mas vejam que é de mim que estou falando e que falo a quem teve a bondade de me chamar para o seu lado.