—Ora! olhe que já tenho trinta e dois!
A outra riu.
—Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar, fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada, penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...
—Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra mais interessante e melhor do que esta...
—E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?
—Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos satisfaz; que mais havemos de desejar?
A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si mesma:
—Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...
Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria. Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.
De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.