—É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que isso se deu.

—E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão de vêr, quando o povo se levantar!

—Que frio que faz! disse o tisico.

Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.

A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas. Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para Sofia:

—Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como uma coisa pôdre, isso é que não se explica.

—Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não se explica!

Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação azulada, bruxuleante.

—Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob, inclinando-se-lhe no hombro.

—Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.