Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento, perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates; celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...

Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora, correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem n’elle.

—Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando: «Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e ficarão sem saber em que apoiar-se.

—É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!

Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade, tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.

Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo, nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.

—É tempo de partirmos, disse a velha.

—Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.

Um dos operarios suspirou ruidosamente.

—É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade!