Pélagué era raro que compreendesse o sentido das palavras de Nicolao, no emtanto, pungia sensivelmente a fé tranquilla que as dictava.

—Ha muito poucos homens livres n’esta terra; é o que faz o infortúnio da humanidade! dizia elle.

Com effeito, Pélagué conhecia pessôas que se haviam libertado dos rancores e da cubiça; e pensava que se o número d’essas pessôas avolumasse, o rosto sombrio e horrivel da existencia havia de tornar-se mais benevolo e simples, melhor e mais luminoso.

—O homem é obrigado a ser cruel contra sua vontade! dizia tristemente Nicolao.

Ella acquiescia com um aceno de cabeça e lembrava-se do russo-menor.

VIII

Um dia, Nicolao, por hábito tão pontual, chegou da repartição muito mais tarde do que o costume. Em vez de tirar o sobretudo, disse com vivacidade, a esfregar as mãos:

—Sabe, Pélagué? Fugiu hoje da cadeia um dos nossos companheiros, á hora das visitas!... Mas não consegui saber quem seja.

Ella sentiu-se cambalear, tomada de commoção; deixou-se caír n’uma cadeira e mal poude balbuciar, em segredo:

—Será o Pavel, talvez?