Mercê das imagens de Jesus, das narrativas que ouvira, Pélagué sabia que Elle era um amigo para os miseraveis, que Elle se vestia sem ostentação; e nas igrejas, onde os pobres vinham a Elle para serem consolados, ia encontral-O opprimido em arrebiques d’oiro e de sedas, desdenhosamente insolentes em face de tanta privação.
E as palavras de Rybine voltavam-lhe á memoria:
—Até de Deus se serviram para nos ludibriarem! Disfarçaram-no com embustes e calumnias para nos assassinarem a alma...
Sem que desse por tal, Pélagué rezava agora menos, mas pensava mais em Jesus, nas creaturas que não falavam d’Elle que nem mesmo o conheciam, segundo parecia, mas que viviam segundo o Seu evangelho e, como Elle, consideravam a terra o reino dos pobres, queriam distribuir em partes iguaes entre os homens todas as riquezas. Reflectia muito em todas estas coisas, aprofundando-as, comparando-as com tudo o que via, e estes pensamentos tomavam corpo, revestiam a fórma luminosa de oração, derramando uma claridade igual na escuridão do mundo, na vida e na humanidade. E afigurava-se á bôa mulher que o proprio Christo, a quem sempre venerára com vago amôr, com um sentimento complexo em que o medo se alliava estreitamente á esperança, á ternura e á dôr, que o proprio Christo se approximava mais d’ella, que se transformára, que lhe era mais visivel, n’uma serenidade mais satisfeita. Agora, via os seus olhos sorrirem-lhe tranquillos com uma viva claridade interior, como se tivesse verdadeiramente ressuscitado, lavado e reanimado pelo sangue candente que por Seu amor generosamente derramam aquelles que teem a sabedoria de nunca O nomear. D’estas viagens voltava, portanto, feliz e animada, porque muito vira e ouvira, e satisfeita com a missão cumprida.
—É agradavel jornadear para um lado e outro e vêr tantas coisas, disse ella uma noite a Nicolao. Fica a gente percebendo como esta vida está arranjada. O povo é escorraçado, atirado á margem, refervendo na sua humilhação e perguntando a si mesmo: «Porque me põem de parte? Porque tenho fome, quando ha de tudo em abundancia? Porque sou eu estupido, ignorante, quando ha tanta intelligencia por toda a parte? E onde está Elle, esse Deus de misericordia, para o qual não ha ricos nem pobres, e de quem todos são bem amados?» Pouco a pouco, o povo revolta-se contra a sua existencia; o povo sente que ha de aniquilal-o a injustiça, se não tratar do seu bem estar.
E experimentava, cada vez com mais frequencia, a necessidade de falar, ella mesma, na linguagem que era a sua, das injustiças da vida; e, por vezes, era-lhe difficil resistir...
Quando a encontrava a folhear os desenhos, Nicolao contava-lhe coisas surpreendentes. Impressionava-a a audacia dos problemas que o homem se propunha; perguntava, incredula:
—Pois isso é possivel?
E Nicolao descrevia-lhe um futuro de sonho, com uma confiança inabalavel nas suas profecias.
—Os desejos do homem não conhecem limite, a sua força é inesgottavel! affirmava elle. Comtudo, o mundo só muito lentamente se enriquece em dons do espirito, pois que, para serem independentes, os homens são obrigados a juntar dinheiro, e não sciencia. Quando tiverem banido a avidez, libertar-se-ão da escravatura do trabalho obrigatorio.