E, limpando os olhos, em rapido gesto:
—Que pena tenho!... Ainda não tinha feito cincoenta annos... Podia viver muito mais tempo. Mas, quando penso em tudo o que vejo, chego a pensar que a morte lhe ha de ser mais leve do que a vida! Vivia sempre só, estranha a todos; não era precisa a ninguem; meu pae tinha-a feito timida com os seus continuos ralhos... Pode-se por ventura dizer que era viver aquillo? Só vive quem espera alguma coisa bôa; mas ella, ella nada tinha a esperar, a não ser os maus tratos!
—É bem certo o que diz, Natacha! declarou a outra depois de reflectir. Para viver é preciso que se espere alguma coisa. Nada esperar é viver?
Affagou com mimo a mão da rapariga e perguntou-lhe:
—E agora, vive sósinha?
—Vivo, respondeu Natacha.
Calou-se Pélagué um instante; depois, concluiu com um sorriso:
—Que importa! Quando se tem uma alma bôa, nunca se está só, sempre se está acompanhada... Natacha foi residir, na qualidade de professora, para um districto onde havia uma fabrica de fiação. Pélagué ia de vez em quando levar-lhe livros proíbidos, proclamações, jornaes. Estava já encartada n’este officio. Varias vezes em cada mez, vestida de irmã da caridade, de vendedeira de rendas ou de retrozaria, de burgueza ricaça ou de peregrina, lá se ia pela provincia fóra, a pé, de caminho de ferro, n’uma carroça, alforge ao hombro ou de mala na mão. Nos hoteis ou nas estalagens, nos vapores, assim como nos comboios, a sua attitude era sempre calma e simples; com os desconhecidos, era a primeira a dirigir-lhes a palavra, e captava irresistiveis simpatias com o seu falar afavel, a sua tranquilidade de mulher que muito viu e aprendeu.
Agradava-lhe conversar com os infelizes e informar-se das suas opiniões sobre o mundo, dos seus infortunios e perplexidades. Enchia-se-lhe o coração de alegria sempre que observava n’estes interlocutores aquelle vivo descontentamento que, embora proteste contra os golpes da adversidade, ardentemente busca solução para os grandes problemas da humanidade. Mais vasto sempre e mais variado, desenrolava-se aos seus olhos o panorama da vida com todas as suas luctas. Em tudo e por toda a parte ella encontrava a tendencia cínica do homem para enganar o homem, para roubal-o, para tirar d’elle o maior proveito possivel. E tambem via a abundancia por toda a terra, ao passo que o povo jazia na miseria, vegetando a bem dizer esfomeado, no meio das incommensuraveis riquezas.
Das cidades, via os templos a abarrotar d’oiro e prata inuteis a Deus, emquanto fóra, nos adros, os necessitados tiritavam na vã espectativa d’uma esmola que não vinha. Aquelle espectaculo era-lhe já conhecido: as igrejas opulentas, as vestes bordadas dos padres, as mansardas dos pobres e os seus ascorosos farrapos; mas n’esse tempo tudo lhe parecia natural, pois que no presente considerava tal estado de coisas offensivo para os pobres, aos quaes, ella bem o sabia, a religião é mais necessaria que aos ricos.