No personagem tão profundamente humano da mãe, Gorki mostra como uma mulher cheia de doçura e de timidez, espancada pelo pae, pelo marido, esmagada impiedosamente pela sorte, immersa na ignorancia e no desbragamento, vae adquirindo pouco a pouco a consciencia da sua misera situação, se alevanta sob a influencia do seu filho, até tornar-se como elle revolucionaria enthusiastica, sacrificando por fim as suas mais queridas affeições, a propria vida mesmo, á causa do povo.

Em torno da mãe e do filho—os dois heroes principaes—agita-se um amontoado de outros personagens. D’uma parte, os amigos: um russo-menor—alma d’abnegação e de commovente simplicidade,—raparigas sacrificando felicidade e riqueza para soffrerem a prisão e as provações de toda a especie; operarios robustos e safados reclamando, com o direito á vida, algumas liberdades; camponezes que, depois de seculos de cega submissão, se recusam finalmente a considerar os representantes das auctoridades como enviados do céo. D’outra parte, os inimigos: officiaes de policia, guardas e espiões, instrumentos doceis do poder. Toda esta gente, tão estranha e tão viva, estas luctas, estes julgamentos, estes martyrios, episodios d’uma guerra cruel e sem clemencia movida contra os apostolos do ideal novo, tudo isto é a realidade, a realidade de hontem, de hoje, de ámanhã, tudo isto existe e existirá, emquanto na Russia durar a lucta libertadora.

De muitas paginas d’este livro emana uma emmoção profunda.

No decurso de uma conversa com os seus companheiros, André, o russo-menor, exclama:

—Que importam os meus soffrimentos, as minhas desgraças! Quando penso em que um dia a patria será livre, o meu coração dilata-se de jubilo... tenho vontade de chorar, tão feliz me sinto!

E quando Pavel diz, falando de um seu amigo desgraçado mas sempre bem disposto d’espirito:

—Sabes? aquelles que mais riem são aquelles cujo coração soffre incessantemente.

Um companheiro responde:

—Qual historia! Se assim fôsse, toda a Russia morreria de riso!