O principe Ouroussof, antigo ministro adjunto do Interior, na Russia, conta nas suas Memorias que a rainha da Rumania, falando-lhe dos escriptores russos contemporaneos, collocava a muito alto a obra de Gorki, que ella conhecia perfeitamente. «Sabe captar a attenção do leitor, declarava ella, e introduziu processos absolutamente novos na litteratura moderna.»
Carmen Sylva alludia provavelmente ao dom que Gorki possue de fascinar o leitor com o poder das scenas que descreve. Taes são, n’este romance, a morte do revolucionario Iégor, a prisão do camponez Rybine, a audiencia do tribunal a que comparecem Pavel e os seus amigos, a scena final em que as mãos dos guardas espancam a pobre mãe. Quantas passagens poderiamos citar ainda! Por exemplo, aquella em que Sophia toca uma symphonia de Grieg. O auctor não diz o nome d’aquelle trecho, mas qualquer musico o reconhecerá immediatamente pela rapida e flagrante descripção que d’elle faz Gorki.
O governo russo entendeu dever apprehender A Mãe em todo o imperio. Poucos dias depois da apparição da obra, a policia fazia buscas em todas as livrarias tanto de S. Petersburgo como da provincia. Chegou muito tarde e só poude apprehender poucos exemplares, por estar já vendida a parte maxima de uma larga edição.
Ao mesmo tempo, as auctoridades entregavam aos tribunaes Gorki e o seu editor, sob a accusação de «excitação á revolta» e de «achincalhamento das coisas santas», crimes que ellas dizem existirem n’este romance. Segundo a lei russa, sob os culpados impende a pena de trez a cinco annos de prisão ou de exilio na Siberia.
Ha trez annos somente, Gorki foi encarcerado na fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, por motivos analogos.
A opinião publica sentiu-se abalada em todo o mundo: de todos os paizes civilisados affluiram petições colossaes, reclamando a libertação do mestre. Gorki foi posto em liberdade.
Soffrendo do peito, o auctor da Mãe está desde ha muitos mezes em Capri. Regressará em breve ao seu paiz.
A prisão estará esperando novamente um dos melhores filhos da Russia?