París, novembro, 1907.
S. Persky
A Mãe
PRIMEIRA PARTE
I
Todos os dias, na atmosphera esfumaçada e grave do bairro operario, o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então, creaturas toscas, com os musculos ainda fatigados, sahiam rapidamente das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na fria meia-luz, iam pela rua estreita em direcção aos altos muros da fabrica que os esperava implacavel e cujos inumeros olhos quadrados, amarellos e viscosos illuminavam a calçada lamacenta. A lama estalava sob os seus pés. Vozes estremunhadas resoavam com roucas exclamações; pragas cortavam o ar; e uma onda de ruidos vagos acolhia os operarios: a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal encaradas como sentinellas, as altas chaminés negras prefilavam-se acima do bairro, semelhantes a grossos bastões.
Á tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos illuminavam as vidraças das casarias, a officina vomitava das suas entranhas de pedra todas as escorias humanas, e os operarios enegrecidos pelo fumo, espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atraz de si exhalações lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam. Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados tinham concluido por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o descanço.
A fabrica absorvia o dia, as maquinas sugavam nos musculos dos homens todas as forças de que ellas precisavam. O dia fôra riscado do computo da vida, sem deixar vestigios; o homem tinha dado mais um passo para o tumulo, sem d’isso se aperceber; mas podia entregar-se ao goso do descanço, aos prazeres da sordida taverna, e estava satisfeito.
Nos dias santificados, dormia-se até quasi ás dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia á missa, censurando aos novos a sua indifferença em materia religiosa. Ao regressarem da egreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até á tarde.