A fadiga accumulada durante longos annos tirava o appetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estomago preguiçoso com a ardencia do alcool.

Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuiam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse secco; os que tinham um guarda-chuva, com elle sahiam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeavel ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorisar-se ao seu visinho, seja de que maneira fôr.

Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fabrica, das maquinas, dizia-se mal dos contramestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A intelligencia desastrada e impotente lançava apenas umas scentelhas isoladas, um tenue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organisavam pequenas reuniões em casa d’um ou d’outro, tocavam harmonio, cantavam canções estupidas e ignobeis, dançavam, contavam historias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensivel que precisava de encontrar sahida. Então, pelo mais futil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animaes selvagens. Havia contendas sangrentas.

Nas relações dos operarios entre si, dominava este mesmo sentimento d’animosidade encubada; inveterara-se n’elles, tanto como a fadiga dos musculos. Estes seres nasciam com a doença da alma, herança de seus paes; e como uma sombra negra acompanhava-os até ao tumulo, impellindo-os á realisação de actos repellentes pela sua inutil crueldade.

Nos dias santificados, os novos regressavam tarde a casa, com os fatos esfarrapados, cobertos de lama e de poeira; com as caras esmurradas, gabavam-se dos murros que tinham dado nos companheiros; as injurias soffridas encolerisavam-nos ou faziam-nos chorar; eram lastimaveis na sua embriaguez, desgraçados e repugnantes. Por vezes, os paes levavam para casa os filhos que haviam encontrado a cahir de bêbedos na rua ou na taverna; as injurias e os murros choviam nos rapazes embrutecidos ou excitados pela aguardente; depois mettiam-nos na cama com tal ou qual precaução, e pela manhã accordavam-nos, apenas o silvo do apito da fabrica cortava os ares.

Embora repreendessem os rapazes e lhes batessem, a sua embriaguez e as suas contendas eram coisas naturaes para a familia; quando os paes eram ainda novos tinham bebido tambem e entrado em desordens, sendo egualmente castigados pelos paes e pelas mães. A vida decorria sempre assim; continuava a decorrer, não se sabia até onde, regular e lenta como um rio lodoso.

Appareciam por vezes no bairro creaturas estranhas, que a principio despertavam a attenção, simplesmente porque eram desconhecidas; mas dentro em pouco habituavam-se a ellas, e acabavam por passar despercebidas. Das suas conversas concluia-se que a vida do operario era em toda a parte a mesma coisa. E desde que era assim, para que falar sobre tal assumpto?

Havia porem alguns que diziam coisas novas para o bairro. Não discutiam com elles, não prestavam mais do que uma attenção incredula ás suas palavras extravagantes, que excitavam n’uns uma irritação cega, n’outros uma especie d’inquietação, ao passo que outros ainda sentiam-se perturbados por uma vaga esperança, e desatavam a beber ainda mais que de costume para afastarem tal impressão.

Se o recemchegado apresentava algum traço caracteristico extraordinario, os moradores do bairro punham-no em rigorosa quarentena, tratavam-no com instinctiva repulsão, como se receassem vel-o trazer para a existencia de todos o que quer que fosse perturbador do rame-rame penoso, mas tranquillo. Acostumados a serem opprimidos pela vida, aquella gente considerava todas as transformações possiveis como proprias somente a tornarem o seu jugo ainda mais pezado.

Resignados, faziam o vacuo em torno d’aquelles que pronunciavam palavras estranhas. Então estes desappareciam não se sabe para onde; se ficavam na fabrica, viviam á parte, não conseguindo confundir-se na multidão uniforme dos operarios.