—Morreu...

Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de balbuciar com a voz a tremer:

—Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...

E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça, deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e desatou em soluços abafados.

Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas. Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e balbuciou por entre os labios trémulos:

—Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel, horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...

Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia, proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:

—E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa... mas—sei-o bem—nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim, eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...

Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.

—Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma... Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar... toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!