—Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.
—Vou.
Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!» dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.
E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.
—Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como morrerei eu?
Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé, junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado, os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor, de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa, impellida por vago presentimento...
«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem valorosa e contristada, que lhe subia do coração.
X
O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:
—Acho-a mudada hoje, Sachenka!...