—Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.
Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar, accentuando as palavras:
—Estavamos falando do Iégor.
—Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que veemencia elle sabia descrever-nos o homem—o homem falso, perverso e violento! Muito lhe devo eu!
Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas preoccupações.
E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.
Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.
—Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este facto.
Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando de súbito, proseguiu em tom singular:
—Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha d’elle—a d’um homem valente e leal—ficou por ventura aniquilada? Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio, nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.