Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com mais brandura:
—Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na immortalidade da gente de bem!
—Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.
—Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno. Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos; estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer que fôsse de maldade, que enervava.
Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:
—E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação, capaz de ir ao encontro das maiores provações.
Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio de tudo isto?»
—Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É verdade! Diz que é facil.
Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:
—E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.