Adeus, companheiro, adeus! cantaram suavemente duas vozes bonitas.

—Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto!

Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido, e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos, n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos, entorpecia as pernas, vergastava os peitos...

Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico, aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas impressões:

—Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois bastantes! E comtudo teem-vos medo!

Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não estava d’accordo com aquella gente. Pensava:

—Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem...

Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer desembaraçar a alma de pesado fardo:

—Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a enterrar assim?...

Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros, parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas. A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão adejavam tristemente flôres murchas.