Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:
—Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga passou por bastantes commoções, não é verdade?
Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e exclamou:
—Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!
—Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra da batalha.
A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:
—Tambem ficou ferido?
—Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz frio e vocemecê tem um fato tão leve!...
Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:
—Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!