Sentiu-se melindrada.
—Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada assustada... e a senhora...
Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma diversa da que usavam entre elles.
Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis, haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais desagradavel.
—É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho, unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que me importa o resto?
—Não está zangada comigo?! exclamou Sofia.
—Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo...
Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe brandamente em uma das mãos, disse baixinho:
—Desculpe... Nunca mais lho pergunto.
Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao campo.