XV
Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz anasalada e filosófica:
—Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a fazer partilhas...
Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou furioso:
—Queres andar, ou não, estuporado animal?
Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús; o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um palpitar indolente das azas.
—Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com elle, concluiu o postilhão.
As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué; no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança de si mesma...
Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas, com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois, ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para alguma coisa longinqua, indispensavel.
A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que suggestionava os espíritos.