—O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro, sentado sempre no rebordo do vehículo.

Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha n’um tom desesperado:

—Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga.

E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom, fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão:

—Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!...

Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella, a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu cachimbo.

Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras. Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa.

De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope; sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio.

Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça. Cumprimentou com a cabeça.

—Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente.