—Não se zangue mais, Excellencia!

—Cala-te d’ahi, meu original!

—Vão-te já levar para a cidade!...

—Lá, ha mais respeito pela lei!

Os gritos da populaça tornavam-se mais conciliadores, supplicantes; conjugavam-se em indistincta vozearia, lamentosa, mas sem qualquer nota em que se traduzisse uma esperança. Os guardas agarraram Rybine pelos braços, conduziram-no pela escadaria da administração e com elle penetraram no edificio. Lentamente, a multidão foi-se escoando. Pélagué notou que o homem dos olhos azues se dirigia para o seu lado e a observava de soslaio. Tremiam-lhe as pernas; desconsoladora sensação de impotencia e de isolamento lhe alanceava a alma, causando-lhe nauseas.

—Não devo ir-me embora! pensou. Não o devo fazer!

Reteve-se vigorosamente á balaustrada e ficou esperando.

Em pé, no cimo da escadaria da administração, o commissário discursava com grandes gestos, repreensivo, e na sua voz outra vez incaracteristica de indifferença:

—Imbecis! Filhos de cães! Não compreendem nada e vão metter-se n’um negocio d’estes!... n’um negócio d’Estado! Idiotas! Vocês deviam agradecer-me a minha bondade, deviam inclinar-se diante de mim, até ao chão! Se eu quizesse, iam todos para as galés!

Escutavam-no uns vinte campónios, de chapeu na mão.