Sem saber porquê, soltou Pélagué um suspiro como de alivio. E de súbito, obedecendo a um instincto mais prompto do que o seu raciocínio, perguntou-lhe em um impulso que a ella mesma surpreendeu:

—Posso passar a noite em tua casa?

E logo sentiu os músculos, o corpo inteiro retesarem-se n’um espasmo. Atravessaram-lhe rapidamente o cérebro idéas cruciantes:

—Vou perder Nicolao!... Não mais tornarei a ver o Pavel... por muito tempo... E hão de espancar-me tambem!

O homem, sem precipitação alguma, olhos no chão, respondeu, emquanto cruzava sobre o peito a gola da blusa:

—Passar a noite? Sim... porque não? O peor é que a minha cabana não é grande coisa!

—Tambem, eu não estou habituada a mimos! respondeu ella.

—Está bem! acquiesceu o campónio, medindo-a por seu turno com olhar perscrutador.

Á claridade do crepúsculo, os olhos do homem tinham um brilho frio; o rosto tornára-se-lhe muito pálido. E logo, Pélagué, baixo:

—Então, vou já comtigo... Has-de trazer-me a mala.