Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe:
—E então?
O outro meneou a cabeça affirmativamente.
—Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade de comer.
—Não, muito obrigada, minha querida senhora.
Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto quebrada pela commoção:
—Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por alcunha o Sovela. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e escrever e não sou um imbecil, para falar assim...
Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia dizendo a Stépane:
—Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está do nosso lado... Não se offenda! Como se chama?
Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho, dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória. Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo. Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e meigo, muito accentuado.