—É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso, sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão «Prende! Mata!»

—Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou:

—Está em cuidado por causa da mala.

—Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem, disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas, ah, não!... A sua mala foi para minha casa!

Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar:

—E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se livros por cá.

—Quer dar-nos tudo! declarou Stépane.

—Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem.

E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos largos pela cabana, satisfeito:

—É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples, afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha; faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a ler esses papeis.»