—E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro.
—Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos! Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o povo é mais feliz.
—Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou, offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou como uma espécie de fermento...
Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a cabeça.
—Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê?
—Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu Stépane, já zangado.
—E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria! Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão!
E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu:
—Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos; o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade, como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha?
—Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer as contrariedades da vida.