Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella própria falava agora ao povo, acerca da verdade!
—Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo farei as leis, iguaes para todos!»
Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se, adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos.
—Ah! ahi está! balbuciou Pedro.
E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça.
Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa.
—Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á empreza, é para se lhe entregar de toda a alma!
Pedro interveio aqui, timidamente:
—Está claro... e sem olhar para traz!
—O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane.