—E em todo o mundo!... disse ainda Pedro.

XVIII

Recostada e com a cabeça reclinada na parede, escutava Pélagué as reflexões dos dois homens.

Tatiana levantou-se, olhou em roda, tornou a sentar-se. Com um brilho metálico nas pupillas verdes, lançou olhares de desprezo aos dois.

—Vê-se que tem sido muito infeliz! disse de súbito, voltando-se para Pélagué.

—É verdade!

—A senhora fala bem... As suas palavras vão direitas ao coração. Quando a gente a escuta, pensa: «Meu Deus! quem pudesse vêr, ainda que não fôsse senão uma vez, gente tão bôa, viver vida tão bella!» Como vivemos nós, aqui? Como uns carneiros! Eu sei ler e escrever... e leio livros... reflicto muito; ás vezes, tenho idéas que nem me deixam dormir de noite. E qual é o resultado de tudo isto? Se não reflicto, soffro, e soffro em vão; se reflicto, é a mesma coisa! De mais, tudo é baldado! Assim, esta gente do campo: trabalham, esfalfavam-se por amor d’um pedaço de pão... e nunca possuem nada!... E é isso o que os irrita; entram a beber, a bater uns nos outros... e lá vão outra vez para o trabalho. E o que se apura d’ahi? Nada.

Falava assim, deixando transparecer a ironia no olhar e na voz grave e ampla, detendo-se por vezes, como para cortar as frases, tal a linha com que estivesse costurando. Os homens nada objectaram.

O vento rufava nas vidraças, susurrava no colmo do tecto, e por momentos, soprava em brandas lufadas pela chaminé. Uivava um cão. Raras gottas de chuva vinham, como a custo, fustigar a janella. Oscillava a luz do candieiro, empallidecia e recomeçava de subito a brilhar, viva e igual.

—E aqui está para que vivem os homens! E é curioso: persuado-me de que já sabia tudo isto! Todavia, nunca tinha ouvido nada parecido; nunca tinha tido idéas d’este genero... nunca!