Reflectiu o outro e respondeu em voz baixa:
—Sim... era o que se precisava.
—Vamos para a mesa! propôz Tatiana.
Durante a ceia, Pedro, a quem as exortações de Pélagué pareciam ter preoccupado, voltou a falar com animação:
—Sabe, tiasinha? Olhe que é bom que se vá d’aqui cedo, para não ser notada. Vá á aldeia proxima; não vá á cidade; e tome uma carruagem.
—Para quê? objectou o outro homem. Se eu próprio a levo comigo!
—Nada d’isso! Se acontecesse alguma coisa, não faltaria quem indagasse se tinha passado a noite em tua casa...—«E para onde foi ella?»
—«Levei-a á aldeia próxima».—Ah, foste tu? Pois vaes para a cadeia!...» Percebeste? E para que ha de a gente ter pressa de ir para a cadeia? Cada coisa a seu tempo!... Mas se tu declarares que ella dormiu cá em casa, que alugou carro e que tornou a ir-se embora, não te pódem fazer nada. Ninguem é responsavel pelo que fazem os viajantes. Se passam tantos cá pelo sitio!...
—Já aprendeste a ter medo, Pedro? perguntou Tatiana, irónica.
—É bom aprender de tudo! respondeu, dando uma punhada no joelho. É bom saber ter coragem e é bom tambem saber ter medo! Lembras-te como o escrivão lá do tribunal andou a incommodar e a perseguir o Baguanof por causa d’aquelle periodico? Pois agora, o Baguanof nem por todo o dinheiro do mundo tocaria sequer n’um d’esses papeis! Creia, bôa mulher: para mim, é coisa facil imaginar bôas artimanhas; todos o sabem cá no sitio. Sou capaz de distribuir livros e folhetos como ninguem... tantos quantos quizer! A nossa gente é pouco instruida e muito medrosa, é certo; todavia, a vida vae tão dura, que o homem sempre se vê obrigado a abrir os olhos e a informar-se do que se passa. E o livro responde-lhe francamente: «Muitas vezes, mais percebe o ignorante do que o homem instruido... principalmente se o instruido fôr um d’esses que abarrotam de fartura. Conheço bem o sitio e sei vêr com olhos de vêr! Póde uma pessoa ir arranjando a vida, mas com esperteza e muita habilidade, para não ir á forca logo d’uma assentada! As autoridades tambem percebem que as coisas vão mudadas, que o camponez anda sorumbático, pouco ri e é de poucas amabilidades... É que, em geral, passava-se bem sem as taes autoridades!... Ainda ultimamente, em Smoliakovo—um logarejosito perto d’aqui—vieram os homens para cobrar uns impostos. Os camponezes então foram a correr buscar cacetes. «Ah, bestas! Vocês revoltam-se contra o tzar!» gritou o commissário. E estava lá um rústico, um chamado Spivakine, que respondeu: «Vá você para o diabo com o seu tzar! Que vem a ser esse tzar que nos leva até á ultima camisa do corpo?» Ora aqui tem em que as coisas param, tiasinha. Escusado é dizer que o Spivakine foi preso e atirado para uma enxovia. Mas ficaram as palavras d’elle, e até as crianças já as repetem. Ficaram vivas, a bradar, essas palavras!