Veio abrir-lhe Nicolao, despenteado, com um livro na mão.

—Já?! exclamou alegremente. Está bem!... Estou mais contente agora!

Piscava os olhos, amigavelmente, por detraz dos oculos. Ajudou Pélagué a tirar a capa e disse-lhe, fitando-a affectuosamente:

—Sabe? Vieram cá fazer uma busca esta noite. Eu perguntava a mim proprio porquê. Receei que lhe tivesse acontecido alguma coisa... Mas deixaram-me em paz, e logo soceguei: se a tivessem prendido, não me deixavam assim com certeza!

Levou-a para a casa de jantar. Pelo caminho, ia contando animadamente:

—Ainda assim, fui despedido da repartição. Pouco desgosto me dá... Estava já farto da estatistica do gado cavallar que não existe nas herdades!... Tenho mais que fazer!

Attentando-se no aspecto da sala, dir-se-ia que mãos vigorosas, em estupido accesso de furia, haviam saccudido pela parte de fóra as paredes da casa, até tudo ficar em completa desordem. Os retratos jaziam pelo chão, os reposteiros e sanefas arrancados, pendiam em farrapos; em determinado sitio uma taboa do sobrado fôra levantada, o peitoril da janella, arrombado; ao pé do fogão, cinzas espalhadas.

Na mesa, ao lado do samovar sem lume, estava loiça suja, presunto e queijo em cima d’um pedaço de papel, nacos de pão, livros e carvão, Pélagué sorriu. Nicolao mostrou-se confundido.

—Fui eu que completei a desordem... mas não faz mal. Parece-me que voltam cá hoje, e tanto que nem ainda comi nada. E então fêz boa viagem?

Esta pergunta como que a magoou pesadamente em pleno peito: de novo a imagem de Rybine se ergueu na sua memoria; sentiu-se culpada por não ter falado d’elle logo ao chegar. Approximou-se de Nicolao e entrou a contar-lhe tudo, deligenciando permanecer calma e não omittir pormenor algum.