—Foi preso!

Nicolao teve um sobresalto.

—Preso! Mas como?

Ella com um gesto, fêl-o calar e proseguiu, como se, face a face, o rosto da propria justiça se encontrasse na sua frente e a ella estivesse reclamando contra o supplício a que assistira. Nicolao, reclinado na cadeira escutava-a, fazia-se pallido e mordia os beiços. A certa altura, lentamente, tirou os oculos, pousou-os na meza, passou a mão pela cara, como se estivesse a limpal-a d’uma invisivel teia d’aranha. As feições accentuaram-se-lhe, as maçãs do rosto tornaram-se-lhe singularmente salientes, palpitaram-lhe as narinas. Era a primeira vez que Pélagué o via n’aquella excitação, o que não deixou de a assustar.

Quando acabou a narrativa, viu-o levantar-se em silencio e pôr-se a caminhar em grandes passadas, de punhos cerrados nas algibeiras. Por fim, murmurou, comprimindo os dentes:

—Deve ser um homem extraordinario!... Que heroismo! E vae soffrer n’uma prisão como soffrem todos os que a elle se assemelham!

Depois, parou em frente da sua narradora; ajuntou com voz vibrante:

—Evidentemente todos esses commissarios, esses officiaes, não passam d’uns instrumentos, d’uns cacetes de que sabe servir-se um patife intelligente, um domesticador de animaes! Mas urge dar cabo do animal, para o castigar de se ter deixado transformar em féra! Eu cá, matava-o logo, esse cão damnado!

Enterrava mais profundamente os punhos nas algibeiras, tentando, mas de balde, reprimir aquella commoção de que Pélagué tambem se resentia. Tinha os olhos contraídos como laminas de facas. Entrou de novo a passear e ao mesmo tempo ia dizendo com frio rancor:

—Ora vejam que coisa horrivel! Uma meia duzia d’homens espancam, suffocam e opprimem toda a gente, para defenderem o funesto poderio de que gozam sobre o povo! A ferocidade recrudesce, a crueldade torna-se lei universal! É para meditar!... Uns batem e procedem como bestas, porque estão certos da impunidade, porque os morde o desejo voluptuoso de torturar, como a repugnante volupia dos escravos a quem se permittia que manifestassem os instinctos servis e os habitos besteaes, em toda a sua hediondez! Os outros envenena-os a vingança, e ainda os terceiros, bestificados sob os maus tratados, tornam-se cegos, tornam-se mudos!... E assim pervertem o povo, um povo inteiro!