—Ha, sim.

—Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!

Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.

—Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não querer voltar lá!...

Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade e sangue-frio:

—Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade de ficar estropiado? Eu me arranjarei:—vou de noite... Sempre hei-de achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.

Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:

—Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella com elles.

—E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.

Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia franca e pelas suas maneiras teimosas.