E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:

—Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...

—Estou percebendo.

—Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo percebe do que se trata!

N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:

«Não passam ainda d’umas crianças!»

Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.

Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E um pensamento cantava no coração de Pélagué:

«Filhos!... meus queridos filhos!...»

—Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...