—O julgamento... dentro d’uma semana... O julgamento!...
Não podia conjecturar o que ia passar-se, nem como os juizes tratariam seu filho. Mas sentia a imminencia d’alguma coisa implacavel, cuja crueza e cuja ferocidade deixavam de ser humanas.
Os pensamentos baralhavam-lhe o cérebro, velavam-lhe a vista d’um vapor azulado e mergulhavam-na no que quer que fôsse frio, viscoso, que lhe causava arrepios, nauseas e, que, infiltrando-se-lhe no sangue, lhe chegava ao coração e suffocava n’ella todo o valor.
XXIII
Dois dias passou n’este nevoeiro de perplexidades e angustias. Ao terceiro, veio Sachenka dizer a Nicolao:
—Está tudo prompto. É para hoje, á uma hora.
—Já?! exclamou admirado.
—Não era coisa muito complicada! Bastava que arranjasse fato para o Rybine e sitio para o esconder. Do resto encarregou-se o Gadoune. O Rybine não terá de andar mais que uns cem passos. O Vessoftchikof, disfarçado, está claro, irá ao encontro d’elle, fornecer-lhe-á um casacão e um bonné e dir-lhe á onde deve ir. Eu espero o Rybine e guial-o-ei.
—Está muito bem... Quem é esse Gadoune? disse Nicolao.
—Deve conhecel-o. É na loja d’elle que temos feito as leituras aos serralheiros...